Descoberta – Eroti-cidades

Setembro 22, 2007

Urban, que a menos de um ano já escrevia contos eróticos da melhor qualidade, chegou a uma amadurecimento tal com seus textos, que é impossível não envolver-se sinestesicamente com eles. Não ouvir, ver, sentir cada uma de suas palavras. Se existe um lugar onde palavras como pau e buceta definitivamente não são xulas é no Eroti-cidades. E fotos de corpos nus, falos rijos, bocas e línguas jamais serão pornografia, mas erotismo puro, pulsante e inebriante.

Descoberta

Havia música, copos tilintando, o movimento do bar, um entra e sai de gente… Seu olhar envergonhado, sua mão indecisa dedilhava sobre a mesa querendo algo que esperava logo ali a poucos centímetros de você. Seu olho que fugia ao encontrar o meu e voltava envergonhado a me procurar. Eu nem ouvia mais a sua voz, investigava você, olhava sua boca, seu cabelo, a manga da camisa que terminava mostrando os pêlos dourados do seu braço, suas mãos grandes, pareciam rudes, agressivas e eu as imaginava me tocando, percorrendo minha pele, afoitas e invasivas.

Você diz algo, eu não ouço e pergunto “como?”. Pagou a conta e quer ir embora, toca minha mão e me chama, eu a seguro, te olho entre os cílios e sorrio. Levantamos. No carro você me abre a porta, me segura gostoso pela cintura me ajudando a entrar, sinto seu cheiro forte que atiça meu tesão.

Senta ao meu lado e saímos sem direção, a rua fervilha, Sade murmura dentro do carro e novamente olhos procuram, mãos e bocas parecem querer mais. Seu olhar verde e minha boca vermelha, sua mão branca e minha perna morena, seus braços fortes e minhas costas macias, a mistura se faz, o carro pára e o tempo também, curiosidade de tudo e uma fome igual. Sabor de jambo, seu gosto vai se insinuando devagar, pedindo calma e lenta exploração, você geme, roça o nariz entre meus seios e sussura baixinho “gostosa…”. Um fogo incontrolável nos toma, corpos que se esfregam e falam por si. Me tranço em suas pernas, vou lambendo seu tórax devagar, descendo mansinho e chegando lá… Ali onde minha língua macia e molhada encontra seu pau duro me querendo. Minha boca diz “gostoso!” emudecendo em seguida.

Imagem: Thomas Kierst

Geraldo Iglesias é um cara interessante, vive rodeado de livros. Ouso dizer que estes são seus melhores amigos os únicos com quem ele realmente se sente bem. Em seus blogs – sim, seus, ele tem muitos – ele abusa da arte de conversar com ele mesmo, viajando na filosofia e auto-conhecimento. Dono de uma personalidade, no mínimo, excêntrica ele eventualmente dá o recado aos seus leitores, indicando que a porta da rua é a serventia da casa. E para isso apresenta ao leitor um maravilhoso mecanismo que é o quadradinho vermelho com um X no meio no canto superior direito. Eu eventualmente faço uso desta censura. Geraldo Iglesias tem o dom de me irritar às vezes, mas também tem o dom de me encantar. O texto abaixo, belíssimo, me deixou extasiada. Reproduzo a seguir.

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O sumo, o sumo

Posso trazer todo o traço indistindo, não falado, deixado de lado numa tarde de delicioso tormento.
Se ela, entretanto, experimenta meu tormento,
minhas labaredas e meus espasmos…
se é dada a vivenciar todas as coisas
como quem visita asteróides invisíveis a olho nú…
Não, ela não será a mesma outra vez.
Será outra, será a próxima,
haverá dado um salto indistindo,
num mar de signos bissexuais…
entenderá o que é fundir-se completamente
ao corpo dele e ser usada,
violenta e ternamente usada
bem como fará uso dele como se ele fosse nada,
fosse um substantivo objeto de desejo e nada mais,
um escravo-patrão, um homem-mulher,
uma mistura de impressões, cheiros,
tensões e líquidos que brotam em profusão
até não se saber mais qual vem de quem…
ainda não, ainda não é a hora do canto da cotovia,
se estavam no tapete, voltem aos lençóis,
suguem o fruto que se oferece,
façam da seiva insistente – e reincidente -
a alegria (lacrimejante) máxima,
como se fosse a derradeira,
como se o sumo fosse o orvalho último

Imagem: Egon Schiele

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Tem um tempo ganhei este livro de uma grande amiga/irmã e acho que o mais legal dele foi me mostrar um panorama geral da literatura erótica e suas diferentes formas de expressão ao longo da história. É um livro interessante para os que estão tendo um primeiro contato com este tipo de literatura, já que dá uma passeada por diferentes praias, diferentes autores. É perfeito para quem só conhece os grandes nomes da literatura erótica, como caviar: “Nunca vi, não comi, eu só ouço falar.” Flaubert, Sade, Masoch, D.H. Lawrence… É meu livro de cabeceira atualmente.

Morango com Gengibre é um dos blogs mais sensuais que conheço. Tem um ar doce, que envolve e excita. Tem um sabor forte que embriaga e arrebata. Creio que o nome é perfeito, pois trata de uma combinação deliciosa. Tanto quanto a combinação de seus criadores. Poeta Matemático e Menina Eva falam de sexo, erotismo, sedução, de sentimentos tão comuns e tão diferentes. Achei impossível falar do blog sem falar dos dois, sem mostrar os dois estilos.

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Morango com Chantili e Chocolate Meio-Amargo

Poeta Matemático

O corpo que era só corpo, tomou-se de pecado, tanto pecado que quando ela viu, não estava mais viva: estava subtraída de si, tomada que era pela língua ávida e áspera daquele amante negro, ébano em carne e osso. Todo o torso, nu e musculoso, a cabeça farta de cabelos grossos, sumida que estava nas pernas escancaradas de A., como que engolida, engolisse, como se comida comesse, como comendo devorasse, e devorando era devorada, com fúria e sentimento.

A. era febre e sofreguidão. Era a angústia, retraída e entregue, mesmo que decidida. Não era dona de nada. O ritmo, a força, a pele forte e escura: tudo aquilo a dominava, a subtraía, a convidava a entregar-se, ser o banquete daquele homem rude, de mãos calosas e de braços decididos. Ele era seu dono, seu mestre, aquele que fazia com ela tudo o que desejasse.

E ele fazia. A pele negra contrastava com a brancura da pele, com o rosado dos lábios e o vermelho dos cabelos revoltos. Contrastava com os dentes escancarados num gemido tão intenso e duradouro que parecia que seria eterno e que derrubaria as fronteiras entre o mundo e o céu. As mãos muito claras, de veias saltadas, forçavam a nuca, misturadas nos cabelos. A barriga tremia convulsiva, num ritmo tórrido e incontrolável, produzindo terremotos sobre o tapete em que ela se entregava.

E ele, vendo que estava numa situação confortável, antes que ela se recompusesse, tomou-a de quatro e amou-a como um animal. As mãos cravadas na pele, fazendo feridas, provocando orgasmos múltiplos, espasmos, gritos, choros, convulsões. A. estava desesperada. O prazer era imenso, ela não tinha qualquer controle sobre si. O tremor tomou as pernas, as costas, a nuca, os braços. Toda ela estava possuída de arrepios.

E quando ele gozou, foi como uma espada atravessando a carne, levando a morte que precede o sabor indescritível da vitória. E eles caíram nus e exaustos, cegos de desespero…

Não era uma cantina italiana, com violinistas ao fundo e carta de vinhos. Era só uma pizzaria simples e limpa, de bairro. Mas era uma festa, ora, e pra comemorar com quem se gosta não precisa de luxo.

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Pé do ouvido

Menina Eva

- Amigão, traz pra gente aqui uma metade portuguesa, metade frango com catupiry?

- Pra viagem?

- É.

Eles se deram as mãos por cima da mesa.

- Feliz Aniversário, meu querido.

- Já começou muito feliz. Você tá linda. Devia usar vestido mais vezes. -Sorriu. – Ou então, não usar.

- Ah, não usar nada? E você ia permitir que eu saísse andando sem nada pela rua?

- E porque não? – Continuou sorrindo. – O Chico Buarque não disse que a Maria era tão linda de se admirar que andava nua pelo país dele?

- Você podia ser um pouquinho mais possessivo.

Ele pegou o pulso dela e apertou. Firme, pra doer, mas não pra machucar. Ela sentiu aquele calafrio de sempre, o jogo iniciando. Ele continou falando, sorrindo.

- Pois eu sou. Muito possessivo. E você não queira saber o que eu faço com quem é desobediente.

Pra evitar que os outros ao redor notassem, ela cobriu a mão que segurava seu pulso com a sua. Mas não tentou soltar – pois estava doendo, e era assim que devia continuar. Sorriu também, e perguntou como quem pergunta as horas:

- Ah, então você é cruel com quem se comporta mal?

- Muito cruel.

- Você é mau, é?

- Muito mau.

- E que tipo de castigo eu mereço, hein?

Ele enxugou o suor da testa, sem diminuir a pressão sobre o pulso. Os dois gostavam daquele jogo, mas disfarçar a excitação em público nunca era simples. Ele respondeu em voz baixa, como quem explica quais passeios se pode fazer de graça em uma viagem pela Europa.

- Primeiro, eu vou tirar o cinto, e prender as suas mãos com ele. Você nem tente fugir. Depois… – olhou pros lados. Sempre tinha aquela sensação de que alguém estava prestando atenção no teor da conversa. – … deixa eu falar no seu ouvido.

Cochichou durante um tempo. Depois, largou-a e sorriu. Ela esfregava disfarçadamente o pulso, e se mexia inquieta na cadeira.

- Nossa, essa é a pizza mais demorada da História. – Segurou as mãos dele por cima da mesa, aproximou o rosto e sussurrou – Eu PRECISO ir pra qualquer lugar com quatro paredes, agora.

Ele assobiou.

- Ô, amigo, ainda vai demorar muito?

* Imagens Ilan Rubin