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Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando qa líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta – lambente – lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e , na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Carlos Drummond de Andrade,
do livro “O Amor Natural”

 

Imagem retirada da net sem citação ao autor*

9 Respostas para “Mimosa Boca Errante – Drummond”

  1. {licia}_Kl disse

    Ah Drummond

    As afinidades aparecem inclusive na escolha dos poetas e escritores
    te gosto

    afagos de gostares

    {licia}_Kl

  2. B, que bela boca errante. Cabe como uma luva no poema do Drumond.

  3. [...] Mimosa boca errante, no Me & My Secret Life; Campanha Fotografe-se, no Licor de Letras Por que os homens traem, no Papo de Homem [...]

  4. poetriz disse

    Drummond é um autor completo.
    Ele fala de amor, de sexo, de diferença social.

    No meu ver a eternidade pode ser gozo, mas o céu é repleto de poetas…

  5. J@de disse

    Eu adoro Carlos Drummond!! Não conhecia esse…
    Beijos!!

  6. tentation disse

    Nhum..
    Que maravilha de blog.
    Adorei.

    Bjs

  7. Sweet Girl disse

    Adorei o blog!

    Eu que adoro poesia, não poderia deixar de adorar Drummond.
    Deixo pra ti mais uma “travessura” dele:

    Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
    de magnificar meu membro.
    Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
    em posição devota.
    O que passou não é passado morto.
    Para sempre e um dia
    o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

    Hoje não estás sem sei onde estarás,
    na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
    Não te vejo não te escuto não te aperto
    mas tua boca está presente, adorando.
    Adorando.

    Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

  8. Cantábile disse

    Estou até mais calma com esse post … e ainda mais com o presentinho da colega acima.
    Vou posta-lo no Cantábile!
    um grande beijo e até

  9. Alisando Cresce disse

    Belas palavras…
    Bela bouka…

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