Seios / Patrícia Clemente
Julho 12, 2007
Estava a pouco lendo o maravilhoso site de Poesia Erótica Utopia. Tem dias que fico horas a folhear aquela seleção de textos tão delicadamente escolhidos para o nosso deleite. Foi quando me deparei com Seios de Patrícia Clemente. Na verdade, este era um heterônimo de Marco Aurélio Vieira Pais, poeta e dramaturgo já falecido que editou apenas um livro, Submissão sob o pseudônimo da poetisa. Segundo dizem, ele arrebatou muitos corações pela net afora dando vida à personagem da poetisa e professora mal-amada.

Sofia, eu no teu rosto busco espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.
E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.
E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.
E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.
E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.
Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios
Mimosa Boca Errante – Drummond
Julho 2, 2007

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando qa líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta – lambente – lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e , na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Carlos Drummond de Andrade,
do livro “O Amor Natural”
Imagem retirada da net sem citação ao autor*