E ainda fugindo dos pop ups…
Março 29, 2007
Estou mudando também o endereço onde costumo guardar os meus contos. O UBBI me serviu muito bem até agora, mas prefiri passar para o WordPress também, até por uma questão de melhor gerenciamento. Isso sem contar que é uma chatice cada vez que abrimos uma página explodirem milhões de pop ups diante dos nossos olhos (com exagero, é claro). Até o momento só importei os contos, as imagens terei que editá-las e isso só com calma, mas estão todos lá, nem eu sabia que já escrevi tanta coisa. Quem quiser reler minhas doidices, é só passar lá.
A Casa dos Budas Ditosos / João Ubaldo Ribeiro
Março 24, 2007
Já haviam comentado e muito sobre este livro, mas… Eu não imaginava que a linguagem era tão direta e deliciosa erótica, porque não dizer pornográfica, já que o tesão vem como uma ejaculação (nossa heroína diria esporrada) na cara. Sensacional este trecho, onde ela narra a sua primeira vez. Deliciem-se.

“Quando ele chegou, parou bem embaixo da arcada do salão, com aquele calção de saco de aniagem sem nada por baixo, vi logo que era uma ereção impetuosa, uma força irresistível forçando o pano quase no meio da coxa esquerda, e ele cruzou as mãos por cima, numa posição que agora eu talvez possa considerar engraçada, mas na hora não me pareceu. Senti a cócega na barriga outra vez, mas ao mesmo tempo não gostei. Não sei direito por que não gostei, mas na hora achei que foi porque fiquei pensando em como era que aquele negrinho, aquele projeto de negrão, aliás, sabia que tinha sido chamado para sacanagem. E se eu quisesse somente pegar passarinhos, mostrar a ele os livros e lhe ensinar algumas letras do alfabeto? Só me lembro disso, embora tenha certeza de que muito mais se passou atropeladamente por minha cabeça, e meu fôlego ficou acelerado. Então veio o estupro, um inegável estupro. Domingo, e o nome dele era Domingos. Rodei os olhos por aquelas paredes, apareceu na minha cabeça padre Vitorino na aula de catecismo, dizendo que domingo queria dizer o dia do Senhor, dominus vobiscum et cum spiritum tuum introibo ad altare Dei ite missa est, aqueles latins do outro mundo e pareceu que um redemoinho me pegou, meus olhos só viam em frente, meus ouvidos zumbiam, e eu falei, levantando a saia e baixando a calçola:
– Chupe aqui.
Não me recordo do que ele respondeu de pronto, lembro que cuspiu para o lado e disse que aquilo não, nada daquilo. Curioso, tudo está vindo de volta como nunca antes. Lembro que olhei para baixo e vi no lugar geralmente designado por nomes ridículos sob os quais a realidade é disfarçada, vi o que eu tenho que dizer com todas as letras, porque de outro modo vou agir conforme tudo o que eu sou contra — daqui a pouco eu consigo, é quase uma questão de honra, não vou ficar satisfeita se não disser –, já razoavelmente emplumada e enfunada como um cavalo de combate, me senti poderosa, marchei para ele, apertei-o no meio das pernas e, mordendo a orelha dele, disse outra vez que ia contar a meu avô a ousadia dele. Chupe aqui, disse eu, que não sabia realmente que as pessoas se chupavam, foi o que eu posso descrever como instintivo. Falei com energia e puxei a cabeça dele para baixo pela carapinha e empurrei a cara dele para dentro de minhas pernas, a ponto de ele ter tido dificuldade em respirar. Não me incomodei, deixei que ele tomasse um pouco de ar e depois puxei a cabeça dele de novo e entrei em orgasmo nessa mesma hora e deslizei para o chão. A essa altura, ele já estava gostando e se empenhando e me encostei na parede de pernas abertas e puxei muito a cabeça dele, enquanto, me encaixando na boca dele como quem encaixa uma peça de precisão, como quem dá o peito para mamar, com um prazer enormíssimo em fazer tudo isso minuciosamente, eu gozava outra vez. Imediatamente, já possessa e numa ânsia que me fazia fibrilar o corpo todo, resolvi que tinha que montar na cara dele, cavalgar mesmo, cavalgar, cavalgar e aí gozei mais não sei quantas vezes, na boca, no nariz, nos olhos, na língua, na cabeça, gozei nele todo e então desci e chupei ele, engolindo tanto daquela viga tesa quanto podia engolir, depois sentindo o cheiro das virilhas, depois lambendo o saco, depois me enroscando nele e esperando ele gozar na minha boca, embora ninguém antes me tivesse dito como realmente era isso, só que ele não gozou na minha boca, acabou esguichando meu rosto e eu esfreguei tudo em nós dois. É impressionante como eu fiz tudo isso logo da primeira vez, porque foi mesmo a minha primeiríssima vez, e eu nunca tinha visto nada, nem ninguém tinha de fato me ensinado nada, a não ser em conversas doidas com as outras meninas do colégio, principalmente as internas, que sempre ficavam meio loucas, como é natural. Grande parte dessas histórias não tinha muito a ver com o que efetivamente é feito, com exceção das histórias sobre algumas das freiras e outras alunas, que eu depois vi que eram mais ou menos verdade e hoje sei que, na maioria dos casos, eram verdade. Suponho que devo ter um certo orgulho disso, devo reconhecer sem modéstia que sou um talento nato, uma predestinada, uma escolhida dos deuses, só pode ser algo assim. Não gosto de falar desta maneira, mas não há como escapar, existe alguma coisa de inexplicável nisso, tenho de crer que nasci sabendo, de certa forma. De certa forma não, eu nasci sabendo. Só pode ser, não me pergunte como. Eu nasci sabendo.
Arrepios.”
Patsy / Conto escrito por Beattrice
Março 17, 2007
- Cansado? – ela perguntou com uma expressão indecifrável no rosto.
- Não, Senhora. – disse com os olhos baixos. E subitamente sentiu um tapa a estalar sua face, ardendo, doendo…
- Mentiroso! Levante-se e me traga aquela bolsa rosa que está no canto do quarto.
E ele levantou com dificuldade, foi tanto tempo ali, na mesma posição, ajoelhado que estava difícil ficar de pé, mas conseguiu. Foi pegar a bolsa que esteve ali parada, estrategicamente deixada naquele canto, à sua vista, durante todo o tempo que esteve ajoelhado e nu à espera de sua Senhora. Período em que humilhado deixou sua mente voar, imaginando o que haveria naquela bolsa. Ela era sempre tão meticulosa, pensava nos mínimos detalhes e antecipava todas as suas necessidades e desejos. Às vezes tinha a impressão que aquela mulher era capaz de ler seus pensamentos, e isso o enchia de medo. Medo que ela tornasse real seus mais loucos desejos.
- Eu não sei por que não desisti de você, sabia? Você não me merece… – ela disse com a voz calma, mas havia naquela frase uma ponta de tristeza. Mais uma vez ela leu seu pensamento.
- Eu peço perdão Senhora, e agradeço que não tenha desistido. – disse visivelmente envergonhado e arrependido. Não estava acostumado a tanto amor e compreensão, essa era a verdade.
- Não me agradeça, me obedeça e eu talvez te perdoe. – falou acariciando com suavidade sua face.
Andou com calma à sua volta, acariciou seu corpo, deteve-se em suas mamas secas e com as unhas calmamente beliscou seus mamilos, fazendo-o sentir dor, quase gemer arqueando um pouco o corpo. Curiosamente não via tal ato como um castigo, mas uma carícia que o fazia sentir-se vivo apesar da dor, não era sonho, ela realmente estava ali a beliscá-lo. Continuou a acariciá-lo, por trás dele com as duas mãos tocou suas nádegas, afastou-as, chegou a pensar que ela o invadiria com seus dedos, mas não… Ela acariciava seu corpo andrógino como se mudamente tentasse fazê-lo consciente do mesmo. Cabelos, face, colo, abdômen, nádegas, coxas… No entanto em momento nenhum tocou seu sexo, não como se evitasse, mas como se ignorasse.
- Vamos ficar bem linda pra mim?! – ela meio que perguntou afirmando, não havia possibilidade de um não como resposta.
Ela retirou alguma coisa da bolsa, uma nécessaire e pelas mãos guiou-o ao banheiro. Ele não tinha atitude, apenas a seguia, obedecia e confiava. Ela ligou o chuveiro, escolheu o ponto certo da água, nem quente e nem fria, pediu que entrasse e se ensaboasse, fazendo bastante espuma. Pedido… Uma ordem implícita, como dizer não?! E próximo a pia do banheiro ela o aguardava com uma navalha de barbeiro. Com calma foi livrando-o de seus pelos, depilando não apenas seu corpo, mas a sua alma também. Teve vontade de chorar emocionado enquanto ela cantarolava feliz. Eles nada diziam, às vezes tinha a sensação que ela o ignorava como pessoa, era um brinquedinho, uma boneca em sua mão. E depois de tê-lo depilado quase que completamente, inclusive contorno anal e axilas, ela deixou apenas um tufo de pelos, delicadamente aparados sobre o púbis.
Encaminhou-o novamente ao chuveiro dando dessa vez uma touca de banho bem ao estilo fru-fru, cheia de babadinhos e detalhes cor de rosa. E enquanto ele deixava a água escorrer sobre seu corpo, levando embora o que restara de seus pelos tão masculinos, ela o guarnecia de toda a sorte de produtos femininos. Sabonetes, cremes, óleos… E quando terminou, ela o aguardava com um lindo e felpudo roupão cor de rosa e pantufas atoalhadas no mesmo tom. Pela primeira vez em sua vida, começava realmente a sentir-se uma mulher. Principalmente por que ela em nenhum momento tratava-o como ele e sim ela.
No quarto, ela abriu uma outra nécessaire, esta repleta de cremes, perfumes, maquiagens, esmaltes… Juntas escolheram a cor que usariam em suas unhas enquanto conversavam amenidades sobre as desventuras femininas para estar sempre lindas. E enquanto ela aos poucos a transformava, sentiu um aperto no peito, era uma felicidade doída a realização daquela fantasia. Pensou no que o mundo poderia pensar e lembrou que não estava diante do mundo, mas apenas diante dela e sem perceber deu um suspiro. Havia alívio, mas também uma certa frustração. Focou seu pensamento na transformação, reclamou um tiquinho quando ela convenceu a limpar um pouco as sobrancelhas. Entregou-se à maquiagem com paciência, tantos cremes, bases, corretivos, tudo a deixava ansiosa. Ansiedade que não foi amenizada após a maquiagem, já que ela a proibiu de olhar-se no espelho.
Começou então a vestir-se, quando viu o conjunto de calcinha e sutiã branquinhos, quase uma linha menina-moça, cheia de rendinhas e fitas, ficou exultante, mas um pouco decepcionada, faltavam seios, faltava volume. E como que adivinhando o seu descontentamento, ela tirou da bolsa um enchimento de espuma e também outro de silicone, e aos poucos, com jeito foi ficando cada vez mais menina. E aquela sensação de estar pela primeira vez livre dos pelos, maquiada, com seios e um aspecto bem feminino quase a levava às lágrimas. Cada momento que se passava sentia-se mais mulher.
Sobre o sutiã ela vestiu uma blusinha, quase um falso corset, e para completar vestiu uma saia de renda curtinha que a deixava com um ar bem sapeca. Calçou meias ¾ no tom da saia e sapatilhas ao estilo bailarina, sentia-se uma adolescente que se arruma para sua primeira balada. Estava feliz, principalmente quando entre um detalhe e outro ela comentava: “Como está ficando linda a minha menina…”. E quando finalmente ela tirou da bolsa uma peruca ao estilo chanel de franja, pensou que não caberia mais em si. Era a realização completa, não agüentou e caiu no choro, emocionada.
- Não! Não chore, vai borrar a maquiagem… Até por que não acabou! – ela disse encaminhando-se para pegar mais um acessório em sua bolsa.
E diante dela – sim era uma mulher finalmente – pediu que ficasse diante do espelho. Não era mais um ser andrógino que não enaltecia a masculinidade para desaperceber-se da feminilidade embutida. Era uma mulher, uma menina linda, delicada e não uma caricatura feminina. E antes que se voltasse para sua Senhora em agradecimento, ela pediu que esperasse. Da bolsa havia tirado um saquinho em veludo negro e com as pontas dos dedos segurou uma correntinha dourada com um pingente. Posicionou-se por trás dela, colocando o cordão que trazia uma letrinha P.
- P… Por que P, Senhora? – perguntou intrigada.
- P de Patsy, minha linda. Uma menina tão bela e sapeca merece um nome à altura. De hoje em diante você será a minha Patsy e é melhor retocarmos a maquiagem, estou a fim de me acabar na balada, vamos?!
Tatuagem / Chico Buarque – Ruy Guerra
Março 13, 2007
Chico Buarque – Ruy Guerra/1972-1973
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra
Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava
Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço
Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva
Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes
1972 © by Cara Nova Editora Musical Ltda. Av. Rebouças, 1700 CEP 057402-200 – São Paulo – SP
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A mulher Carioca / Vinícius de Morais
Março 8, 2007
A gaúcha tem a fibra
A mineira o encanto tem
A baiana quando vibra
Tem isso tudo e o céu também
A capixaba bonita
É de dar água na boca
E a linda pernambucana
Ai meu Deus, que coisa louca
A mulher amazonense
Quando é boa é até demais
Mas a bela cearense
Não fica nada pra trás
A paulista tem a erva
Além das graças que tem
A nordestina conserva
Toda a vida e o querer-bem…
E a mulher carioca
O que é que ela tem? (bis)
Ela tem tanta coisa
Que nem sabe que tem
Ela tem um corpinho
Que mais ninguém tem
Ela faz um carinho
Melhor que ninguém
Ela tem passarinho
Que vai e que vem
Ela tem um jeitinho
De nhen-nhen-nhen-nhen
Ela tem, tem, tem… (bis)
in Poesia completa e prosa: “Poesias coligidas”
in Poesia completa e prosa: “Cancioneiro”


