Este foi o meu segundo conto… Escrevi porque queria dar um enfoque diferente, um olhar feminino ao tema da podolatria, daí aconteceu este conto. É talvez o meu conto mais engraçado, pois a protagonista é bem atolada e divertida. Vale como entretenimento. Ei-lo:

Todo dia ela faz tudo sempre igual…

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmm!!!!!!!!!

Ainda com os olhos fechados, esticou o braço e tateou a mesinha ao lado da cama, em busca do maldito despertador para desligá-lo. Todo dia era a mesma guerra para levantar-se da cama e começar sua rotina. Um raio de sol teimava em entrar pela fresta da janela, e pousar diretamente sobre seus olhos. Realmente não tinha jeito… Já estava mais do que na hora de levantar. Olhou para o relógio e constatou sete horas da manhã.

Como uma gata, espreguiçou-se lentamente na cama, adiando o mais que possível o inevitável. Levantou-se sonolenta e viu seu reflexo nu (somente dormia assim) no enorme espelho estrategicamente posicionado em frente da sua cama, lembrança dos tempos do seu “ex”, que era extremamente visual, e adorava admirar de diferentes ângulos, seus momentos na cama… “Um delicioso taradinho”, lembrou, “Se não fosse tão canalha…” suspirou desconsolada… Olhou-se no espelho. E mesmo com a cara inchada de sono e os cabelos despenteados, não tinha como negar que era uma mulher bonita no auge dos seus trinta e cinco anos. Uma balzaquiana e tanto, tinha que admitir…

Seu cabelo negro, cortado reto na altura do queixo, bem liso com franjinha, valorizava muito mais os grandes olhos negros e lábios carnudos. Davam a ela um ar misterioso e sensual, parecia uma atriz de cinema mudo. Lembrou que quando perguntavam o que ela mais gostava em seu corpo, respondia os olhos apesar de todo o resto também chamar atenção. Tinha olhos grandes e um olhar penetrante, que a deixava muito sexy.

Levou as mãos aos seios e pensou no quanto gostava do tamanho deles, apesar de serem menores dos que estão na moda, tinham um formato bonito, nada que um sutiã meia taça não ajudasse a deixá-los ainda mais sedutores… Sua pele muito branca e sem marquinha de biquíni, era o seu orgulho, dava ainda mais contraste ao triângulo negro em seu baixo ventre. Nem parecia morar em cidade que tem praia…

Virou-se e olhou o bumbum, “bendita musculação que o deixava sempre de pé”, pensou sorrindo. Gostava mais do seu corpo hoje, do que há quinze anos atrás. Talvez por que hoje, ela soubesse exatamente o que fazer, para obter o máximo de prazer dele… Pelo menos algo de bom tinha que vir com o tempo afinal. A consciência do próprio prazer, muito mais que um presente, era uma conquista.

Acordou então do seu devaneio, abriu o guarda roupa e escolheu o que iria vestir. Para não errar, usaria um conjunto de saia e blusa, o famoso visual “pretinho básico” e uma mule de bico fino, também preta, nos pés. Pegou toalha e roupão, dirigiu-se ao chuveiro e lembrou da música de Chico Buarque, “Todo dia ela faz tudo sempre igual…” e sorriu. “Eu faço, mas quem não faz?” Ligou o chuveiro e começou a cantar…

Caso do acaso

Olhou o relógio e viu que já estava atrasada, como sempre… Procurou então sua pasta, jogou dentro os papéis que estavam em cima da mesa, suas chaves e antes de sair, pegou uma maçã e deu uma mordida. Enquanto fechava a porta (que era sempre um evento à parte, pois necessitava de um jeitinho todo especial), ouviu um barulho atrás de si, e instintivamente virou a cabeça para saber do que se tratava. Viu que um homem se divertia com a cena que ela protagonizava. Tinha sua pasta entre as pernas, a maçã na boca como um leitãozinho de festa e as duas mãos puxando a porta tentando fechá-la.

“Precisa de ajuda?!” perguntou ele solícito. Meio constrangida, ela ainda tentou falar alguma coisa, mas foi impossível com a maçã para atrapalhar… Ele então abaixou e pegou a pasta entre suas pernas, que só então conseguiu terminar a aventura diária com a porta. Tirou a maçã da boca e com um lindo sorriso disse: “Obrigada, tem momentos que tenho mãos de menos para necessidades demais…” e pegou novamente a pasta.

Ele sorriu e estendeu a mão num gesto cordial: “Sou seu novo vizinho, Marcelo, muito prazer!” Mais uma vez então ela sorriu, percebeu que não tinha as mãos livres. “Está vendo?! Mãos de menos…” e abriu os braços demonstrando que as suas duas mãos estavam ocupadas, uma com a pasta e outra com a maçã. Então colocou a pasta mais uma vez entre as pernas, estendeu a mão livre pra ele e disse: “Muito prazer, Carolina!”

O novo vizinho era interessante, não era muito alto, mas como ela também não era… Vestia jeans, camisa de manga comprida branca arregaçada, deixando à mostra os pêlos dos braços, trazia também uma pasta preta nas mãos. Seu rosto era másculo, não era lindo, tinha o nariz reto, lábios carnudos, extremamente sensuais… “Essa boca parece ter sido feita para beijar” pensou. Usava óculos de aro preto, escondendo um pouco a intensidade do verde dos seus olhos, mas que dava a seu rosto um ar ainda mais interessante. Tinha os cabelos castanhos claros bem curtinhos, talvez para disfarçar a calvície evidente, que ela simplesmente A-M-O-U! “Tem coisa mais sexy que um careca bem cheiroso e charmoso logo pela manhã?” pensou, e sorriu sozinha. Deu mais uma olhadinha discreta, e resolveu quebrar o gelo dizendo alguma coisa…

“Bom, já fomos devidamente apresentados, você já viu que sou sua vizinha mais enrolada, e também a mais atrasada, sempre!” dizendo isso, olhou o relógio e deu um grito: “Meu Deus! Hoje eu me superei…” Ele comentou que também estava atrasado, mas que foi um prazer conhecê-la, desceram juntos no elevador conversando sobre assuntos triviais. Despediram-se na garagem. E antes de sair, é claro que ela deu uma “olhadinha para finalizar a inspeção”. Mais uma vez sorriu sozinha, “Acho que estou sozinha há tempo demais, já estou até imaginando coisas com o vizinho novo… Sossega menina!”

Chegando ao trabalho, teve um dia “daqueles”, nada de novo ou nada de mais, apenas a sua rotina agitada de sempre, subiu e desceu as escadas tantas vezes aquele dia, que certamente não agüentaria ir à academia… Viu aliviada, o relógio dar seis da tarde sem nada especial de última hora. No dia anterior tinha ficado até às nove da noite na empresa, e mesmo assim ainda levou a papelada para revisar em casa.

Todo o pessoal do escritório estava eufórico, comentando a esticada para uma “Happy Hour”, aniversário de uma colega de trabalho, mas o cansaço falou mais alto e teve que pedir desculpas. Logo ela, a maior “festeira”, saindo pela tangente… Na verdade, dava graças a Deus ser sexta-feira para poder ir pra casa, tomar um bom e demorado banho, quem sabe enfim conseguir ler um pouco o livro “onze minutos” do Paulo Coelho, e talvez chegar à tão comentada cena de SM que sua amiga Beattrice, tão euforicamente comentou. Não se importando se depois viesse a dormir sem culpa de não conseguir acordar na hora na manhã seguinte.

No caminho de casa, passaria no supermercado. Faltava um monte de coisas em sua despensa, e se viu obrigada adiar um pouco mais sua chegada ao tão ansiado descanso. Seus pés latejavam. Enquanto dirigia, pode enfim libertá-los um pouco da mule e exercitar seus dedinhos. Aproveitando os movimentos de aceleração, freios e embreagem para massagear um pouco seus pezinhos livres. Seus pés estavam suados, depois de um dia inteiro de trabalho, trancafiados, juntinhos dentro do sapato…

No supermercado, comprou rapidamente o que necessitava, mas perdeu um pouco de tempo escolhendo vasinhos de kalanchoe, as flores da fortuna. Que se traziam fortuna ou não, ela não sabia, mas que o colorido daquelas florzinhas que lembravam pequenas estrelas a encantava, isso encantava… Pagou, pediu ajuda para que levassem os vasinhos, que foram cuidadosamente acondicionados em uma caixa, até seu carro e foi pra casa enfim.

Na garagem do prédio, mais uma vez calçou seus sapatos e olhou em volta para ver se havia alguém que pudesse ajudá-la, mas estava vazia. Deu então seu jeito, mas demorou um pouco, colocando a caixa com os vasinhos de flores em um braço, a pasta e as compras no outro. Chegando ao elevador, com o cotovelo, conseguiu apertar o botão para chamar. Quando já estava se acomodando no cantinho esperando a porta fechar, ouviu uma voz masculina: “Segura!” e ela então com o pé prendeu a porta do elevador, não deixando que fechasse.

Logo ela viu o dono da voz, Marcelo seu novo vizinho, que assim que entrou, olhou para seu pé prendendo a porta e agradeceu. “Obrigado pelo pezinho” disse sorrindo, e ela então soltou, deixando que a porta se fechasse. Só podia mesmo sorrir, quando mais uma vez se olharam, viram que estava com as mãos ocupadas e caíram em uma gostosa gargalhada dizendo juntos: “Mãos de menos!” Ele então educadamente pegou a caixa de suas mãos e disse que tudo era uma questão de jeito. Ela ia esboçar uma resposta, quando o elevador deu um solavanco e apagou por completo.

Na escuridão do elevador

“O que aconteceu?” disse ela visivelmente assustada. “O elevador parou” ele respondeu. “Isso estou vendo, mas o que faremos?” Ele pediu então que ela se afastasse um pouco e tateou até encontrar o interfone. Estava completamente mudo. Ele então disse que deve ter faltado energia.

Ficou nervosa, detestava ficar fechada em algum lugar, ainda mais em um elevador apagado sem saber sequer o que estava acontecendo. Sem conseguir controlar, começou a chorar de nervoso. Percebeu então ele abaixar-se e logo em seguida carinhosamente trazê-la para junto a seu corpo, ele havia colocado a caixa com as flores e a pasta no chão e abraçou-a dizendo: “Fique calma Carolina, deve ter faltado energia, logo vai voltar, não se preocupe…”

Ele falava baixinho e calmamente. E daqueles lábios que pela manhã ela pensou que só foram feitos pra beijar, saíam também palavras delicadas de consolo para acalmá-la. Ela acabou aproveitando-se um pouco da situação e deixando-se abraçar. Havia tanto tempo que seu corpo não era tocado por um homem, que não sentia aquela proximidade… A respiração tão próxima. Ele acariciava seus cabelos, como quem acaricia uma criança e ela foi aos poucos acalmando.

Ouviram então um barulho. Um pouco mais acima pareciam estar forçando a abertura da porta do elevador… Provavelmente eles haviam parado entre dois andares. Já que o barulho não parecia estar à frente, mas sim acima deles. Foi então que alguém gritou: “Tem alguém no elevador?” e eles responderam que sim. Era o porteiro, havia estourado um transformador de eletricidade no quarteirão e estava tudo apagado, chamariam o corpo de bombeiros para resgatá-los, mas pediu que eles ficassem calmos, pois eles poderiam também estar atendendo outros chamados na vizinhança. “É, vamos ter que nos agüentar um pouquinho mais…” ele disse. O que não era nenhum sacrifício, ela pensou. Organizaram então as suas coisas em um cantinho do elevador e resolveram sentar no chão. Se era para esperar, pelo menos que fosse sentados.

Assim que sentaram, ficaram frente à frente, mas a escuridão não deixava que vissem nada. Começaram a conversar, comentaram do acontecido na manhã. Ela disse o quanto aquilo é normal. Que sempre sai atrasada e “atolada” de casa. Ele disse que com ele é justamente o contrário, é muito organizado e sai sempre mais cedo de casa, para não atrasar-se, mas hoje em especial, o relógio não despertou.

Em determinado momento ela deu um gemidinho de desconforto. “Hummmmm, como meus pés doem…” ele então falou: “E por que não tira os sapatos, vai sentir-se melhor…” Ela então deu uma sonora gargalhada “Está brincando? Depois de um dia de trabalho, se eu tirar essa mule do pé agora, você não vai agüentar…. Irão encontrar dois corpos quando a energia voltar. Eu te mato asfixiado e morro de vergonha…” Ele então mais uma vez incentivou, “Tira, eu só acredito vendo, aliás, ver qualquer coisa nesse momento é impossível. Retificando, só acredito sentindo.” e dizendo isso, ele começou a tatear em busca dos seus pés para tirar o sapato… Ela ria tanto, tanto… Que já escorriam lágrimas dos olhos.

Ele então finalmente conseguiu tirar seus sapatos, e começou então a massageá-los, delicadamente, lentamente… “Gosta?” ele perguntou com a voz rouca, e ela apenas respondeu: “Hummmmmmmm, não pára, por favor…” Um de seus pés estava pousado no colo dele, enquanto o outro ele massageava. Naquela escuridão, conseguia prestar uma atenção maior em cada toque daquelas mãos, seus polegares em sua sola… Seus dedos sobre o seu pé suado e quente. Ele primeiro massageou calmamente um e depois o outro, poderia estar enganada, mas havia naquele toque mais que bondade da parte dele. Havia sensualidade e erotismo. Lembrou do dia em que morreu de inveja quando Beattrice comentou do orgasmo que sentiu com um homem a seus pés… Seria um podólatra, ou o mais delicioso massagista que conheceu?

Com o pé livre, que não estava sendo massageado, ela deslizou por entre as pernas dele, prestando atenção a qualquer reação. Percebeu que a respiração dele ficou ofegante com a proximidade de seus pés entre suas coxas e o acariciou. Ele deu um leve gemido… Estava sensivelmente excitado. Nesse momento, ela teve certeza que ele estava gostando muito mais do que o normal de ter seus pés entre as mãos e delicadamente desvencilhou seu pé das mãos dele.

Enquanto um pé acariciava entre as pernas por sobre a calça, excitando-o cada vez mais, com o outro ela forçava a abertura dos botões da camisa dele. Acariciava seus pêlos do peito com a sola do seu pé, e acariciava-o encaixando a curvinha do seu pé pelo seu pescoço, pelo seu rosto, pela sua barba. Passando os dedos sobre os olhos fechados, por baixo dos óculos.

Nesse momento ele pegou seu pé, e ela sentiu sua respiração ficar mais profunda, ele colocou o nariz entre seus dedos e cheirou o suor neles. Enquanto isso, mais uma vez acariciou sua sola com as mãos, e ela sentiu que “ele” latejava por baixo da calça, sob o toque do seu outro pé. Ela sentia-se extremamente excitada com aquele toque, com as carícias, foi quando ele então começou a chupar seus dedinhos, um a um… Com volúpia…

Segurou então o seu outro pezinho que o acariciava, e começou também a beija-lo, cheirá-lo… A mordiscar as solas… Ela quase desfaleceu de tanto prazer… Um pé ele mordiscava, lambia a sola… O outro, ele passava em seu rosto, em sua barba. Ela se contorcia de prazer enquanto tinha um dos mais deliciosos orgasmos que já teve na vida, sem nenhuma penetração, nenhuma estimulação direta em seu sexo… Era uma sensação deliciosa ter aquele homem ali, beijando e acariciando seus pés… Proporcionando um orgasmo tão intenso, que ela deu um grito de prazer…

Ouviram então, mais uma vez um barulho do lado de fora e a voz do porteiro lá em cima, “Pode ficar calma dona Carolina, que o bombeiro acabou de chegar e vai tirar vocês daí” e eles não tiveram como evitar uma gargalhada, não estavam nada interessados com o retorno da energia…

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